sexta-feira, 29 de junho de 2012

José Raimundo Braga Coelho - Entrevista

Olá leitor!

Segue abaixo uma interessante entrevista com o novo presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB) José Raimundo Braga Coelho, publicada na Revista Espaço Brasileiro (Jan – Jun de 2012), sobre os seus planos para o Programa Espacial Brasileiro.

Duda Falcão

ENTREVISTA

José Raimundo Braga Coelho
Mais Integração, Êxito e Luz
para o Programa Espacial

O matemático José Raimundo Braga Coelho assumiu o
comando da Agência Espacial Brasileira (AEB) em 23 de
maio. Ele trabalhou no INPE por quase 20 anos e enfrentou
muitos e variados desafios ao lado de Marco Antônio Raupp, hoje
Ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a quem sucede
na presidência da AEB. Foi membro da diretoria da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e, desde 2011, vinha
dirigindo o Parque Tecnológico de São José dos Campos, em São
Paulo. Confira nesta entrevista algumas ideias fundamentais do
novo líder do Programa Espacial Brasileiro.

Presidente da AEB

Quais são as novas grandes linhas do Programa Espacial Brasileiro (PEB)?

Primeiro, estamos construindo um sistema integrado de gestão para dinamizar o PEB. É obra indispensável. Nenhum grande problema é resolvido setorialmente. Todos os elementos de um sistema – instituições, pesquisadores, técnicos e administradores envolvidos numa tarefa comum – têm que trabalhar em conjunto, aliados, conversar continuamente entre si, trocar informações, colaborar ativamente uns com os outros. Esta é a melhor forma de combater os problemas nacionais. É desta maneira que se fazem satélites e foguetes, assim se faz qualquer coisa, sobretudo em áreas de grande complexidade científica e tecnológica. É isto o que estamos empenhados em montar: um sistema integrado de gestão para dar ao PEB um novo ritmo e um nível mais alto de eficiência e eficácia.

Como montar esse sistema integrado?

O primeiro passo foi dado. Apresentamos às autoridades e à área jurídica o plano de integração do INPE à AEB. Há muitas razões para isso, inclusive históricas. O INPE é unidade executiva de um segmento importantíssimo das atividades espaciais brasileiras. Onde está o INPE hoje? Subordinado à Subsecretaria de Unidades de Pesquisa (SCUP) do MCTI, que tem zero de orçamento e coordena cerca de 20 unidades de pesquisa. Esse é o melhor lugar para o INPE? Claro que não. O melhor lugar para o INPE é junto à AEB. Ambos são órgãos dedicados por inteiro às atividades espaciais. Não por acaso, a maior parte do orçamento do INPE vem da AEB. Essa integração, lógica e natural, vem consolidar e otimizar um novo sistema gestão do PEB. Ela fortalece tanto a AEB, como coordenadora do sistema, quanto o INPE, centro de pesquisa científica e tecnológica fundamental para o sistema. É boa para todos.

Como situar o DCTA neste sistema?

O Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA), com o Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE) e outros, é vinculado ao Comando da Aeronáutica e, portanto, ao Ministério da Defesa. Já começamos a falar sobre procedimentos para uma maior integração com o DCTA. A primeira tarefa a ser trabalhada é por uma integração prática entre todas as unidades executoras do PEB. A primeira coisa que fiz como presidente da AEB foi ir ao DCTA e conversar com suas lideranças. Perguntei se tal prática os incomodava. Eles disseram que não, de modo algum, e que era justamente isso o que gostariam que ocorresse. Então, após alcançar êxito na integração do INPE, unidade ligada ao MCTI, isso poderá, em condições ainda melhores, despertar o interesse do DCTA e seus institutos por integrar a AEB. São processos dinâmicos, já ocorreram em muitos países.

Como se dará na prática a integração AEB-INPE?

A vinculação é formal, mas nós queremos mais. O ministro Raupp e eu somos aposentados pelo INPE. Trabalhamos lá muito tempo. Eu passei 20 anos no INPE. Então, vou me aproveitar da proximidade que tenho com quase todos os profissionais de lá, desde o funcionário mais simples até os mais graduados, para cultivar uma prática no cotidiano. A integração se dará sem nenhum demérito para o INPE. Pelo contrário, o INPE crescerá muito mais com isso. Teremos agora a obrigação de mostrar o que o INPE significa para o Brasil e trabalhar para que ele melhore ainda mais. Tenho dito aos amigos do INPE que estamos lá para “pick up the winners”, buscar e prestigiar os vencedores. Vamos consolidar o trabalho deles e dar-lhes mais força.

“É isto que estamos
empenhados em montar:
um sistema integrado de
gestão para dar ao PEB um
novo ritmo e um nível alto
de eficiência e eficácia”

Como a integração funcionará estruturalmente?

O INPE continuará onde esta, em São José dos Campos, mas agora, creio, com mais participação e entusiasmo de seus pesquisadores, técnicos e funcionários, graças à dinâmica do trabalho conjunto. A AEB fará tudo para estar mais perto até fisicamente. Desde a gestão do ministro Raupp à frente da AEB, estuda-se uma alternativa para que a AEB, com sede oficial em Brasília, possa funcionar também em São José dos Campos, onde sua presença é sumamente necessária e requisitada a todo o instante. Afinal, é lá que as coisas acontecem na área espacial. E devem acontecer cada vez mais. A presença da AEB é desejo de todos, INPE, DCTA e AEB. Mais que desejo, é necessidade.

Como ficam nessa integração os setores industrial e acadêmico?

Para alcançar novas e grandes conquistas, a academia precisa estar ao lado do setor privado. Não tem sentido ela e o setor público em geral passarem a vida investindo na mesma coisa. Há muito o que fazer com as tecnologias já desenvolvidas que não oferecem riscos por estarem inteiramente dominadas. Assim que o risco diminuir bastante, é hora de passar o conhecimento obtido a uma empresa privada. A indústria nacional, quase toda formada por empresas privadas, é vital na luta pela inovação. No ambiente público, é muito difícil haver desenvolvimento sistemático e crescente, e, sobretudo grandes inovações. Mesmo que haja, não há o ganho principal que vem da atividade privada, que possibilita a manutenção e a garantia de regularidade. Sem envolver a indústria, tanto na área espacial como nas outras, não há regularidade. Quem está comprometido com a regularidade e a constância e o setor privado. A indústria espacial brasileira tem que comandar o processo quando não há riscos tecnológicos. O local padrão no Brasil para se correr risco no desenvolvimento tecnológico é o setor público. Mas já há casos em que a empresa privada desenvolve peças importantes com risco, sendo financiada por agências do governo. Isso também ocorre na área espacial. Nossa indústria espacial já se considera preparada para assumir a construção de sistemas completos, agora de satélites e depois de vetores.

O que diria aos empresários, nesta nova etapa do PEB?

Eu citaria alguns exemplos para esclarecer bem o cenário que vislumbramos. Vamos, em julho, discutir com os chineses o futuro do programa CBERS, prevendo o trabalho conjunto  entre as indústrias espaciais dos dois países. Vale reafirmar também a situação que envolve hoje a construção do primeiro satélite geoestacionário brasileiro de telecomunicações. Ele está sendo desenvolvido dentro de um ambiente empresarial. Abdica-se do apoio do INPE? De modo algum. Acordos serão concluídos com o INPE para que participe ativamente do trabalho. E mais: sempre que o Brasil estiver a fim de criar ou aperfeiçoar tecnologias espaciais, o mais apropriado e conveniente será contar com o conhecimento e a experiência dos institutos públicos para isso e a seguir repassar o know how obtido às empresas privadas. No caso do CBERS, pelo o qual o Brasil já responde por 50%, nossa intenção é envolver cada vez mais a industria nacional. Nossas empresas já têm condições para assumir a maior parte de um grande projeto. Neste sentido, vamos promover arranjos empresariais que nos permitam exportar o que fazemos aqui. Há notícias de que o Paraguai quer que o Brasil construa um satélite para seu uso. Se pudermos montar joint ventures com outros países, aproveitaremos essa e outras chances. Entrar e crescer no mercado mundial é plano viável para nós.

E as Universidades?

Já temos alguns bons cursos de engenharia aeroespacial. Outros virão com certeza. A meta é pôr as universidades num marco global, ao lado da indústria. Que os reitores pensem nisso seriamente: a área espacial terá muita demanda, sobretudo quando completarmos o ciclo inicial com o modelo de empresas integradoras, e pudermos lançar satélites a partir de Alcântara.  A demanda deverá crescer muito, tanto por satélites quanto por lançadores. Então, que as universidades preparem novas competentes gerações de recursos humanos. Vem aí um novo pré-sal, agora no oceano espacial.

Universidades e centros tecnológicos podem tomar iniciativa na área espacial?

Claro. Na realidade, já estão tomando. A AEB apoia a iniciativa universitária de construir um microssatélite. Queremos usar esse satélite para atender às necessidades da Agência Nacional de Águas (ANA), com qual já firmamos um memorando de entendimento. O satélite prestará serviços ao Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos (SNIRH), não será um satélite apenas, mas um conjunto deles, que poderão se tornar uma constelação. Aí entrará também a nossa indústria, para produzir a série. Esse caso mostra concretamente como as universidades e os centros tecnológicos podem e devem ser criativos e gerar soluções espaciais para os nossos problemas terrenos.

Os 12 governadores da Amazônia reivindicam um programa espacial para a região. Como vê essa proposta?

É absolutamente pertinente pensar na Amazônia como se ela fosse um país dentro do Brasil. Então, é absolutamente pertinente que se encaminhem soluções especiais, inclusive na área espacial. A Amazônia tem posição e feições específicas. Por exemplo, os satélites com sensores óticos, que servem muito bem em outras áreas do país, não servem totalmente aos propósitos da Amazônia, que precisa bem mais do que sensores óticos, precisa de sensores de micro ondas, sensores de radar e outros recursos sui generis. Um programa espacial ajustado às especificidades e complexidade das questões que pressionam esse gigante chamado Amazônia deve, sim, ser estudado, discutido e construído com toda a competência disponível no país.

“Para alcançar novas e
grandes conquistas, a
academia precisa estar ao
lado do setor privado”

Qual o papel da cooperação internacional em nosso Programa Espacial?

A cooperação internacional própria do nosso tempo, em qualquer área, inclusive e sobretudo nas áreas de desenvolvimento científico e tecnológico como a espacial, é aquela que garante o respeito aos direitos e legítimos interesses dos países participantes. Um modelo histórico disso é o acordo de cooperação espacial com a China, firmado em 1988 – há 24 anos, portanto. Foi o primeiro acordo sobre tecnologia de ponta entre dois países em desenvolvimento. Vigora até hoje e descortina promissoras perspectivas para os próximos anos. Brasileiros e chineses foram capazes de pôr em prática um algoritmo de desenvolvimento conjunto, em que cada país faz a sua parte e depois os dois se juntam para discutir o trabalho como um todo. É curioso, o acordo não fala de transferência de tecnologia. Seria muito difícil regular isso naquela época, como ainda é hoje. Mas o acordo funciona muito bem. O chineses aprenderam muita coisa conosco e nós aprendemos muitas coisas com eles, não só no início como até agora. Aprendemos, sobretudo, uma coisa vital, a tolerância, porque as nossas diferenças culturais eram e são muitos grandes, como também é muito grande a distância física que nos separa. Agora, no início de julho, o Ministro Raupp chefiará importante missão que vai a China, integrada por dirigentes da AEB e do INPE. Vamos estudar com os chineses o futuro da nossa colaboração e definir áreas e projetos de interesse mútuo daqui para frente. Será, sem dúvida, mais um exemplo de parceria estratégica, madura e responsável. Podemos dizer que somos um país rico em cooperação espacial. Nossa carteira de atividades internacionais é cada vez mais valiosa. Desenvolvemos cooperação com países tanto desenvolvidos como em desenvolvimento. Nos fóruns mundiais, temos atuação ativa, altiva e comprometida com o acesso de todos os países aos benefícios e conhecimentos espaciais. Queremos que a indústria brasileira seja, cada vez mais, beneficiária dos frutos desse nosso esforço internacional. Nossa preocupação central no setor é que as interações com outros países obedeçam sempre às regras de ouro do interesse mútuo e do desenvolvimento tecnológico conjunto. Porque só assim ninguém explora ninguém e todo mundo sai ganhando.

Como vê o potencial de Alcântara?

É gigantesco. Precisamos aproveitar esse potencial com sabedoria, competência e criatividade. O Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), capaz de promover todo o tipo de lançamento com invejável nível de segurança, eficiência e economia, tem tudo para ser fonte inesgotável de riquezas e de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico para a região, para o país, para nossas instituições e empresas. Estamos hoje empenhados em realizar obras e projetos de alta relevância em Alcântara. Temos de transformá-la em um local de investimentos de grande interesse público e privado. Em Alcântara, há tarefas a cumprir de curto, médio e longo prazo. Urge que sejamos proativos em todas elas.

Como dar ao programa espacial os recursos humanos de que carece?

Vamos nos valer do programa “Ciência sem Fronteiras”, coordenado pelo CNPq, para fomentar em escala crescente a formação de recursos humanos especializados nas áreas espaciais mais necessárias aos nossos projetos, sejam eles de instituições ou de empresas. Pensamos também em criar bolsas específicas para certas atividades espaciais críticas. Queremos ver nossos universitários estudando em instituições de ensino e pesquisa da França, Alemanha, China, Ucrânia, Rússia, Estados Unidos, Índia, entre outros. Ao mesmo tempo, precisamos trazer de volta os nossos engenheiros, que, neste momento, trabalham nesses países e têm muita vontade de regressar ao Brasil.

Como dar mais luz, isto é, mais orçamento ao programa espacial, conforme o seu discurso de posse?

O Brasil é movido por uma chama ardente chamada sucesso. Ainda que comece pequena, se ele crescer, vai logo chamar a atenção e atrair muita gente interessada. O Ministro Raupp e eu, nessa comunhão de espírito que nos une e já tem cerca de 40 anos, sempre observamos esse processo em muitos projetos. E constatamos: o orçamento, em grande parte, é fruto disso. Daí que faremos todo o esforço para ir alcançando êxitos constantes até chegar à luz almejada. Temos de conquistar a simpatia e o apoio da população brasileira, que ainda não entende bem a importância, a utilidade e a necessidade do programa espacial. Vamos fazer um grande esforço neste sentido. Vamos mostrar à população os benefícios e vantagens das atividades espaciais, especialmente para um país gigantesco e rico como o nosso. Co o apoio da sociedade, com a opinião pública convencida de que o programa espacial deve ser uma prioridade da nação, haverá maiores possibilidades de conseguir todos os recursos necessários para desenvolvê-lo ao máximo. Então, precisamos obter sucesso e conquistar a população. Esse é o interruptor com o qual acenderemos a luz, que é o orçamento.

Qual é o impacto das parcerias público-privadas no orçamento espacial?

O modelo que criamos para fazer o primeiro satélite geoestacionário brasileiro de telecomunicações é uma ideia iluminada. A parceria público-privada pode realizar uma obra essencial com mais velocidade e eficiência. A aliança Embraer-Telebrás pode atrair mais investimentos privados, estimular mais projetos espaciais importantes. Há que fazer o mesmo com os avanços de nossos projetos de longo prazo, como o CBERS. Em novembro próximo, lançaremos o CBERS-3. Todo o país precisa saber disso com detalhes, passo a passo. Temos que mostrar isso à população, à opinião pública, ao Congresso Nacional. É por ai que chegaremos a uma luz cada vez mais luminosa. O PEB não precisa ser perfeito, basta ser melhor, cada vez melhor!


Fonte: Revista Espaço Brasileiro - num. 13 - Jan a Jun de 2012 - págs. 05, 06 e 07

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