quarta-feira, 7 de março de 2018

O Brasil Aeroespacial de Amanhã


Olá leitor!

Trago agora para você um interessantíssimo artigo intitulado “O Brasil Aeroespacial de Amanhã” escrito que foi pelo jovem Dr. Oswaldo Babosa Loureda e enviado pelo mesmo ao recentemente criado “Comitê de Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro (CDPEB)”. Vale a pena conferir.

Duda Falcão

O Brasil Aeroespacial de Amanhã

Por Dr. Oswaldo B. Loureda*
07/03/2018

Para o céu e além, certamente foram os pensamentos do patrono da aviação Alberto Santos Dumont, ao elevar-se nos céus de Paris com suas máquinas voadoras. Como revelado em seus escritos, petit Santos tinha sonhos e aspirações para sua pátria amada, sonhava com um futuro aeronáutico para nosso país. Assim como Dumont, dificilmente os grandes pioneiros como Cel. Ozires Silva e Brig. Montenegro Filho podiam imaginar no que suas iniciativas iriam resultar concretamente, uma das mais reconhecidas escolas de engenharia do mundo, e a terceira maior fabricante de aeronaves do mundo. Em um país de base agropecuária como o Brasil, com toda sorte de empecilhos ao empreendedorismo e a inovação, é altamente improvável uma empresa como a Embraer, no entanto, ela existe e apesar de capital aberto ainda é sim brasileiríssima.


A engenharia aeroespacial é considerada uma das áreas do conhecimento humano mais desafiadoras que existem, sendo geradora de spinoffs para quase todos os campos do conhecimento humano, desde medicina á geologia. Acredito que justamente por suas características altamente desafiadoras, os brasileiros se envolvam de forma tão apaixonada, o que tem em comum esses mineiro, paulista e cearense? Certamente, encontraram muitas barreiras para usar como combustível. Mesmo com IDH de país em desenvolvimento o Brasil possui uma das maiores frotas de aeronaves experimentais, e no campo espacial, mesmo com orçamentos escassos e incertos, nosso país teve papel protagonista até pouco tempo no desenvolvimento e ensaios de satélites, foguetes de sondagem e segmentos de solo, temos inegavelmente um passado glorioso para nos orgulhar, mas e hoje?


Na última década uma verdadeira revolução vem acontecendo na astronáutica mundial, embalada por crescente participação e liderança do setor privado, os programas espaciais governamentais tem gradativamente se voltado mais para a exploração profunda, enquanto os projetos de maior aplicação imediata tem recebido maior atenção de grupos privados, seja na forma de jovens startups na base da pirâmide desenvolvimentista, startups mais robustas como SpaceX, Blue Origen, Bigelow e VirgenGalatic ou mesmo as gigantes tais como Boeing, Lockheed Martin e Arianespace, sem claro, excluir a participação fundamental dos diversos grupos de investimento de risco, que vem mostrando grande apetite pelo chamado “Space Risk”.


Nessa equação também entram outros fatores importantes como a maturidade da indústria de base da nação que se aventura por esse setor, além claro, da tolerância a risco dos grupos de investimento disponíveis nesses países, o que de fato em ambos os casos não tem sido muito alto no Brasil dessa década. No entanto, de forma mais generalizada, a disponibilização de tecnologias como a manufatura aditiva e o acesso facilitado ao projeto e fabricação de aviônicos de relativo alto desempenho e ainda COTS tem completado a equação que tornou possível CubeSats de sensoriamento remoto avançados como da argentina Satellogic, e lançadores como o recente bem sucedido Electron da RocketLab.


Se abre um admirável mundo novo para a exploração espacial da próxima década, com players dos mais variados e inclusive diversos novatos como Irã, Coreia do Sul, Paraguai e Arábia Saudita, no entanto, no setor espacial no Brasil utilizamos satélites ainda caros demais e com tecnologias obsoletas, como o CBERS. Insistimos mais de 30 anos em um projeto de veículo lançador de satélites que se transformou em microlançador, mas mantém praticamente todos os erros estratégicos e comerciais que o defunto anterior, no entanto com menos recursos e ainda menos força de trabalho. Em contrapartida, existe um concorrente menor, mais eficiente e muito mais barato de fabricar e lançar, exclusivamente operado por uma startup de pouco mais de 10 anos de mercado, falo aqui da RocketLab, que opera nos EUA e na Nova Zelândia, inclusive com seu sítio de lançamento próprio. É difícil, porém necessário salientar que tudo isso foi possível por meio de investimento privado em algumas rodadas que somadas dão uma pequena fração do que foi gasto em programas como o da Alcantara Cyclone Space – ACS aqui no Brasil, porém com resultados reais e altamente impactantes para a empresa, seus funcionários, investidores e os Neozelandeses impactados com a entrada de sua nação para o cenário aeroespacial mundial.


Os erros estratégicos foram muitos, entre eles a ausência de uma lei mais adequada e ágil para instrumentalizar compras e contratações de desenvolvimento do PEB, do que a atual lei 8.666. Também, tráfico de influência em projetos de grande porte tem gerado enormes prejuízos aos cofres públicos, assim como más decisões estratégicas na gestão pública e na condução de projetos internacionais, falta de formação de gestores e gerentes de projetos com visão sistêmica, falta de uma meta clara que inspirasse a nação e contribuísse pela ascensão do nível de importância da agência espacial dentro do cenário executivo e legislativo nacional, falta de incentivos e apoio para o crescimento de empresas de base tecnológica sérias para o setor, e não apenas meia dúzia de empresas de lobistas, e provavelmente o maior erro de todos, falta de apoio sério e contínuo no incentivo e formação de estudantes e mão de obra para o setor.


A promoção da AEB ao palácio do planalto certamente aceleraria enormemente os cronogramas das missões, assim como evitaria cortes e permitiria uma visão mais patriótica de nosso PEB, muito menos partidária ou pessoal, realmente como um projeto de país, necessário e rentável a nação. Está mais que comprovado que cada real investido em tecnologia de ponta retorna a população somas da ordem de uma casa decimal maior, e o mercado espacial não é diferente, com cifras na ordem de US$ 300 bilhões anuais. Certamente com a priorização de nosso programa espacial, os instrumentos serão mais facilmente lapidados, e novos profissionais formados para a gestão de excelência poderão atuar eficazmente, assim como nosso centro de lançamento de Alcântara poderá finalmente ser explorado de forma rentável, seja por empresas estrangeiras ou por nossos próprios lançadores. Outro ponto fundamental esta na recuperação e incentivo a programas como AEB Escola, Jornada Espacial e Escola do Espaço nascidos na AEB/INPE/DCTA e programas independentes como os das engenharias aeroespaciais brasil a fora, Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica, Associação Aeroespacial Brasileira, Brazilian Association of Rocketry e Space Camp Brasil que poderiam ser fortemente ampliados mediante ao fomento sério e contínuo da AEB.


Apesar de todos os entraves e limitações que o nosso país ainda deve superar, o nosso futuro certamente será espacial, o sucesso da Embraer nos céus de todo o mundo mostra muito do talento do brasileiro, e a aproximação da gigante Boeing vem confirmar esse prestígio, trazendo consigo novos horizontes para o desenvolvimento aeroespacial brasileiro. Independente do suporte ou não as startups espaciais no Brasil, elas surgirão em solo nacional, tarde ou mais tarde ainda o brasileiro é persistente demais para permanecer as margens desse processo. Nos últimos anos o Brasil vem perdendo inúmeros profissionais desse setor, seja para organismos governamentais como ESA e NASA, ou para empresas privadas, e até mesmo empresários levando suas empresas para fora do pais, como no caso da Airvantis. No entanto o número de egressos dos 7 cursos de engenharia aeroespacial vem aumentando, juntamente com o surgimento de um movimento nacional de grupos de espaçomodelismo espalhados pelas diversas faculdades e universidades nacionais, o que tem gerado o interesse e capacitação de centenas de jovens profissionais para o campo espacial.

O atual cenário de disponibilização de microeletrônica avançada, insumos até pouco tempo inacessíveis como ligas de Titânio e Fibras de Carbono e processos de manufatura mais avançados e enxutos como sinterização a laser, também o surgimento de jovens profissionais motivados e capacitados, aliados a crescente maturação do mercado de investimento de risco trará um celeiro bastante propício ao desenvolvimento de startups ágeis no campo de microssatélites e plataformas, suas infra estruturas de solo, e provavelmente no campo de Microlançadores também, no entanto, certamente uma política de incentivo e apoio a esses empreendimentos por parte da AEB, FINEP, FAPs e BNDES poderá acelerar muito esse desenvolvimento.

Visando esse cenário, um novo curso de Engenharia Aeroespacial irá iniciar suas atividades em 2018, na tríplice fronteira do Brasil com Paraguai e Argentina, a instituição sede vem se transformando gradativamente em um polo de referência no ensino de engenharia com as metodologias mais inovadoras. O curriculum é integral, voltado para a plena capacitação do aluno no campo da engenharia aeroespacial, preservando e estimulando a especialização do egresso para o campo da pesquisa de ponta, a gestão de programas aeroespaciais complexos ou mesmo o empreendedorismo espacial. De forma a dotar os estudantes de visão internacional e confiança, dezenas de profissionais de excelência e renome serão professores convidados durante o curso, além do estágio final de conclusão de curso que é estimulado a ser no exterior.

Outro ponto diferencial no curso é a metodologia ativa e a inserção de projetos integradores de engenharia em todos os semestres do curso, incentivando os estudantes a projetarem, gerenciarem, testarem, fabricarem e operarem sistemas aeroespacial em grupos desde o início do curso, gerando assim egressos com considerável experiência profissional no setor e boa capacidade de trabalho em equipe e pró ativismo.

* Dr. Oswaldo Barbosa Loureda: Coordenador da Engenharia Aeroespacial da UNIAMÉRICA e Fundador e CEO da startup espacial brasileira "Acrux Aerospace Technologies" - www.uniamerica.br/aeroespacial

2 comentários:

  1. " A ciência nos da o conhecimento, por isso tenho fé em Deus! e na minha religião, que me dá o sentido e, o discernimento. Parabéns Engº Oswaldo Loureda, pela suas sábias palavras. Ambas, a ciência e a religião, são pré-requisitos para uma existência decente.
    Constantemente eu me questiono, como as pessoas educadas e cultas, podem ser tão limitadas de visão, para não ver que a ciência não faz nada além de expor a criação divina.
    Segundo Stepham W. Hawking, proferi-o em em reunião, dizendo: - " Eu acredito no Possível,... ( para mim, segundo as palavras do Engº Oswaldo: Em um Brasil Aeroespacial do Amanhã),...Acredito que, por menor que sejamos, e por mais insignificantes,... ( no momento que nos brasileiros estamos passando),...que venhamos a ser; podemos alcançar o entendimento do universo. ( Nos, devido ao caos que se instalou no Brasil, aparentemente, nos sentimos pequenos;...ao olhar para o céu, e não podermos conquistá-los com as nossas próprias mãos, ofertadas pela ciência). Será que somo muito pequeno, muitos pequenos, diante ( a tantas esperas e lutas),...Mas uma coisa eu sei!!! Somos profundamentes capazes de coisas muito, muito GRANDES. O Grupo CEFAB, parabeniza o Mestre, Engº e professor: Oswaldo Loureda. !!!!!!!! Sucesso Mano Veio!!!!!!

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  2. O Brasil vai chegar na "vanguarda" da corrida espacial, brasileiro é persistente, criativo e certamente a iniciativa privada vai no Brasil e no mundo estar à frente dos programas espaciais mais importantes!

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